sábado, 7 de setembro de 2019


Ensaio Literário do conto O Cobrador de Rubem Fonseca.

Iniciei a leitura do conto O Cobrador desconhecendo o tema que norteava a narrativa, quando observo que já no primeiro momento se pode perceber que se trata de um texto forte, impressionante e cruel.

O Cobrador inicia sua jornada de recuperação de dívida com o dentista que lhe arranca um dente podre. Observo certo tom de ironia no diálogo com o dentista quando lhe é perguntado sobre o estado dos seus dentes. O personagem pensa em como são engraçados “esses caras”, pois para ele não há muita lógica na pergunta. Trata-se de uma pessoa de baixa renda (suponho pelas condições de moradia), com condições precárias de cuidar da saúde, e sem dúvida, como é notório no decorrer do texto, com outros assuntos mais importantes para tratar do que o cuidar dos dentes.
Já de início notei que o Cobrador tem um propósito específico: ele quer receber de volta tudo aquilo que lhe foi tomado. Ele já pagou demais: pagou com a saúde, pagou com as frustrações, humilhações e agora ele quer aquilo que não teve, e que ele se vê como credor: ele quer tirar de dentro dele o peso da dívida; ele quer receber o que merece como ser humano, como pessoa.
O Cobrador sente a necessidade de receber o que lhe foi tomado, o que nunca lhe foi dado pela sociedade, pelo semelhante, pelo vizinho, pelo próximo.
Continuei o conto e então mais uma brutalidade da diferença social ofende o Cobrador quando uma buzina de uma Mercedes o acorda dos seus sonhos de adquirir uma nova arma. A petulância do motorista em exigir que ele adiantasse o passo e saísse da frente o irrita, e então ele atira no carro; porque naquele momento é o carro que o irrita, o incomoda.
Atinge o motorista no pescoço não intencionalmente e, atendendo ao desejo do moribundo, ele segue o caminho abandonando a Mercedes (símbolo de tudo aquilo que o dinheiro que ele não tem pode comprar) apenas com um para-brisa estraçalhado.
Aqui neste trecho sinto que o Cobrador não quer o que os outros tem. Para ele não importa se ele não tem uma Mercedes; para ele a injustiça está no fato de que alguém tem muito mais e outros não tem nada; que alguns devem muito para ter o que tem, e devem a ele. E ele vai pegar de volta. De todo mundo.
Quando a sua realidade se limita a fome, morte e violência, tudo é válido para sobreviver, inclusive técnicas de enganação. Até o vendedor da Magnum ficou para trás depois que conheceu o Cobrador.
O cobrador se sente em falta de muitas coisas: sorvete, bola de futebol que remente a uma infância certamente precária e limitada; colégio, namorada, aparelho de som, provenientes de uma adolescência e juventude escassa e ausente de boas relações e desprovida de educação; respeito, sanduíche de mortadela, sexo ausências sentidas numa vida jovem e adulta.
Engraçado quando o Cobrador cita que quando quer aumentar o ódio liga a televisão, por que se existe um lugar que vende mentiras e frustrações é na televisão. As propagandas comerciais vendem um mundo perfeito, as melhores coisas são as que eles vendem e você tem que comprar para se sentir parte da sociedade; comer o que vende, vestir o que se divulga. Os programas jornalísticos manipulam o espectador e apresentam o que lhe convém e quando é conveniente. São meias verdades; são informações incompletas e  reportagens que dão ibope.
Fez me lembrar uma canção composta e interpretada por Pitty, Admirável Chip Novo, quando a letra diz: Nada é orgânico / É tudo programado / E eu achando que tinha me libertado / Mas lá vem eles novamente eu sei o que vão fazer / Reinstalar o sistema / Pense, Fale, Compre, Beba, / Leia, Vote, Não se esqueça / Use, Seja, Ouça, Diga, / Tenha, More, Gaste, Viva.”
Sigo a leitura do conto de Rubem Fonseca e encontro um Cobrador poeta. Poesia dura, crua e real, sem a beleza das rimas de amor de Vinícius de Moraes. Não é todo mundo que consegue entender a beleza da sua poesia, e nem é todo mundo que está interessado em ouvir a realidade em verso e rima. A verdade incomoda, a dor alheia dói aos ouvidos e por isso cansa, desinteressa.
A injustiça não está apenas em vida, mas também na morte. Noticia-se a morte de quem tem posses, com explicações sem sentido para dar uma melhor veracidade aos fatos e para omitir pontos que causam desconforto para os iguais; inventam-se motivos desconhecidos para justificar o absurdo do crime. Mas para que não tem muito ou quase nada, morrer é lucro. E sendo “melhor assim” não há razão para “dar ibope no jornal”.
Noite de festa de gente rica; mulheres e homens bem vestidos; usando, bebendo e comendo estrangeirismos... e um homem manco por perto. De dar pena. Pena por quê? Pela dificuldade da mobilidade, pela aparência, pela falta de oportunidade (será falta de oportunidade?) que o caminho da vida o levou. Sente pena quem vê; sente-se pena de si mesmo, mas não pelo mesmo motivo.
Alvos encontrados: um casal fingido; que na ausência de plateia não se importam um com o outro; cuidam cada um da sua aparência; do seu propósito. Na busca por uma “entrada triunfal” encontram mais de seus iguais; e o que é igual se torna comum, desinteressante. Reflexo de uma sociedade de aparências. Importa parecer ser do que de fato ser. Mas não para o Cobrador.
Eis que chega a hora do encontro; o momento de mais um acerto de contas com a vida, com o destino. Não o dele, claro. O destino de quem cruza o seu caminho. Carteira ao ar: não me interessam seus bens; não vai me comprar; não quero o que é seu: quero o que é meu. Grávida? Serei justo. Que o feto tenha morte imediata e nem se dê ao trabalho de nascer.
Todos nos espelhamos em alguma cena de filme, daquele preferido que já sabemos de cor as falas do personagem que mais veneramos. E porque a vida não é justa, nem assim o Cobrador é capaz de copiar à perfeição sua cena preferida. Improvisa. Assim fez a vida toda. Assim fará agora. Cabeça rola, não de primeira. Mas o fim é chegado.
A rotina do Cobrador segue e ele consegue, disfarçadamente, executar um plano de invadir um apartamento para cobrar mais uma parte que lhe devem: satisfação física; sexual. Culpam os outros pela violência, e ao mesmo tempo não cuidam da sua própria segurança. E com essa permissividade também se permite conhecer uma moça branca, bonita de corpo e que por ele também se encanta.
Saem juntos para se conhecer e, ora se a moça branca, Ana, também não é ela mesma uma surpresa estranha?! Sou também apresentada a Dona Clotilde, uma senhora que tem pelo Cobrador imenso apreço; e de quem ele retribui com zelo como se com uma avó ou mãe. São novos olhares que se derramam sobre o Cobrador: uma jovem moça branca de classe alta que demonstra desejo da companhia e presença, e uma senhora que lhe tem como a um filho.
Num momento em que para o Cobrador a vida era nada mais do que cobrar o que lhe é devido, o encontro com Ana traz para ele um novo horizonte. Que ele não consegue esquecer. O amor. O desejo. O encontro com alguém que se pode ser inteiro. É assim que Ana e o Cobrador se descobrem um no outro.
Cada um com suas contas a exigir da sociedade. Cada um com seus anseios pela justiça. Ele ensina a ela; ela ensina a ele. Juntos montam o projeto final das suas jornadas.
Noite de Véspera de Natal. Baile de Natal ou Primeiro Grito de Carnaval. Uma missão: um jovem casal que divide teto, sonhos e planos. E nesta noite sairá para o encerramento de um ciclo; a conclusão das suas vidas. E estão satisfeitos com o desfecho que os aguarda.
Não fica claro para o leitor sobre qual veredito o Cobrador determinou qual o seu verdadeiro inimigo. Suponho que, pela presença do Governador no Baile de Natal e este ser o alvo desejado do Cobrador, ele tenha encontrado como inimigo aqueles que estão no poder público – prefeitos, governadores, presidente – e que são os responsáveis pelo bem-estar social. Sendo também os mesmos responsáveis pelas mazelas que a sociedade carente vive.
Depois de algumas dívidas cobradas, chega a hora de encerrar o ciclo cobrando de quem mais é devedor. Chega o momento em que o Cobrador entende a razão de toda a sua perda durante a vida e como ele poderá minimizar a dor dos seus pares e deixar como legado a sua luta, a sua tentativa de tornar o mundo um lugar mais justo.
Onde aqui se faz; aqui se paga.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.


Letra da música Admirável Chip Novo extraída de https://www.letras.mus.br/pitty/admiravel-chip-novo/ acessado em 20 de agosto de 2019.
FONSECA, Rubem. O Cobrador, disponível em http://www.releituras.com/rfonseca_cobrador.asp acessado em 15 de agosto de 2019.

terça-feira, 25 de junho de 2019

O Sentido de Um Fim - Resenha.




O livro é narrado por Tony Webster (que toda vez que leio esse sobrenome penso em lagosta - lobster) e dividido em duas partes.

Na primeira o Tony se remete à adolescência e aos amigos criados na época e que duraram até início da fase adulta. Eram quatro amigos que tinham pontos de vista em comum, mas um deles, Adrian, era o que mais se destacava pela suas percepções de vida e sua maneira de entender o mundo.
E ainda, nesta fase, ele cita pedaços da época em que ele estava na faculdade, onde ele conhece Verônica, uma jovem baixinha e intrigante, que se torna sua "primeira namorada a ser apresentada aos amigos" cuja opinião deles seria (para Tony) importante - aceitação.

Na segunda, já na fase adulto/aposentado/divorciado/avô o Tony revive suas memórias quando recebe uma herança inesperada: uma carta da Sra. Ford (mãe de Verônica, sua ex, que se tornou amante/namorada/esposa de Adrian, seu melhor amigo) com dinheiro e o Diário de Adrian. Mas esse diário não chegou às mãos deles. Verônica não permitiu a entrega.

Esse é o cenário.
Mas de fato o que se passa é que o livro trata de memórias. Nossas memórias.
Aquelas que contamos aos outros e as nós mesmos de como foi a nossa vida nos tempos de escola.

Como "me sentia" em relação a um ou a outro companheiro de jornada de vida.

Tony via a si mesmo como um jovem/homem pacato, sem vontade ou disposição de "questionar a vida". Um homem bom. Que mantém uma relação cordial com sua ex-mulher; com sua filha (apesar de não ser muito presente) e de repente é jogado ao passado, ao retorno de sua relação estranha com Verônica e mais ainda, com o fantasma do seu amigo (que cometeu suicídio quando jovem).

O genial do livro é que notamos, na leitura, o quanto enganamos a nós mesmos sobre quem fomos um dia.
Olhamos para o nosso passado e nos vemos um "antigo eu" que não exatamente é como nós fomos.
Refazemos nosso passado do modo como, para nós, é conveniente.

E de repente somos levados a ver que não, não foi bem assim. Não foi desse jeito que aconteceu.
E nesse rompante descobrimos ainda que, o nosso "antigo eu" pode ter ferido fortemente pessoas que eram/são importantes e que essa ferida não cicatrizou independente de quanto tempo tenha se passado.

Nossa memória não é nossa história. As testemunhas dela são prova de que nem tudo é aquilo que pensamos que foi; que nossa percepção de nós mesmos pode mudar.

Um livro intrigante e que deixa um desfecho em aberto.
Afinal, Tony conseguiu entender Verônica? Conseguiu desvendar o que aconteceu? Quem era/é ela? Quem era/é ele?
No fim das contas, qual será o resultado da equação com as variáveis b; a¹; a²; s; v?

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Gente, Aproveita essa oferta: Um Pequeno Herói